«Uma forma de o medíocre convencido imitar a grandeza é não dizer mal de ninguém.»

Vergílio Ferreira (1919 - 1996)


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4 de abril de 2010

Poeta castrado não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria a pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia!?
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
---
José Carlos Pereira Ary dos Santos (1936 - 1984)

18 de fevereiro de 2010

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

«Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os Homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, nas manhãs de ouro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!»

---
Florbela Espanca (1894-1930)

17 de fevereiro de 2010

Pintura de Klimt & Soneto de J. P. Rato e Cunha


Hope I, Gustav Klimt (1862-1918)

(clicar na imagem para aumentar)

---
«Soneto à Ângela

Bela, pele morena e robusto peito,
deixas todo o homem de pau feito.
Aquele teu quente túnel mui visitado
é hoje percurso doce e alargado.

Tu, ó Ângela, que tanto andaste,
foi neste badalo que te montaste.
Foste a Marte e com ele levaste,
passaste por Vénus e n'ele fecundaste.

Mil voltas deram desde os colhões
(cada bicho do bando de campeões)
mas nada valeu teres esfregado sabões!

Se fosse outra a queca martelada
e almejasses ter sido bem enrabada:
não serias agora bovina emprenhada.»

---
José Pombo Rato e Cunha (1948-)

10 de fevereiro de 2010

Pintura de Kush & Soneto de Anselmo


Horn of Babel, Vladimir Kush (1965 - )

(clicar na imagem para aumentar)

---

«Soneto de todos os cornos

Não lamentes, Alcino, o teu estado,
Corno tem sido muita gente boa;
Corníssimos fidalgos tem Lisboa,
Milhões de vezes cornos têm reinado.

Siqueu foi corno, e corno de um soldado:
Marco Antonio por corno perdeu a c'roa;
Anfitrião com toda a sua proa
Na Fábula não passa por honrado;

Um rei Fernando foi cabrão famoso
(Segundo a antiga letra da gazeta)
E entre mil cornos expirou vaidoso;

Tudo no mundo é sujeito à greta:
Não fiques mais, Alcino, duvidoso
Que isto de ser corno é tudo peta.»

---
José Anselmo Correa Henriques (1777-1831)

13 de janeiro de 2010

Agrada me no desespero

(sem título)

Agrada me no desespero
não te sintas como amigo
estupidamente feliz
e acaricia-me o cabelo

Vês como ele brilha
com a luz do sol
que não quebra
nem parte, como o anzol

Se queres casar comigo
corre comigo nas ruelas
atira aos pássaros pedras
enfeitiça-me com a tua infância

A tua infância
tão doce, escorrida
tão triste, com a distância

Se queres casar comigo
entende-me com o teu propor
acha-me, sem esplendor
faz de mim uma, contigo

Contigo, tudo se move
a minha criança descobre
contigo, nada me morre
e até a saudade escorre!

Se, queres, casar comigo
vem ter amanhã ao adro
não há padre, nem diabo
há paz, há crianças, Há fado!

---
Sofia do Carmo Miguel

5 de janeiro de 2010

António de Oliveira Salazar

António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
......
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Pica só azar, é natural.
Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...
......
Coitadinho
do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...

Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.

Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

---
Fernando Pessoa (1888 - 1935)
in Da Républica (1910 - 1935)

Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão. Lisboa: Ática, 1979.

11 de dezembro de 2009

Extremo II

(Soneto da Donzela Ansiosa)

Arreitada donzela em fofo leito,
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombra subtis pachacho estreito:

De louro pêlo em círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branca crica, nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito:

A voraz porra as guelras encrespando
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrados:

Como é inda boçal, perde os sentidos:
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.

---
Bocage (1765 - 1805)

Extremo I

Oriente

Este lugar amou perdidamente
Quem o cabo rondou no extremo Sul
E a costa indo seguindo para Oriente
Viu as ilhas azuis do mar azul

Viu pérolas safiras e corais
E a grande noite parada e tranparente
Viu cidades nações viu passar gente
De leve passo e gestos musicais

Perfumes e tempero descobriu
E danças moduladas por vestidos
Sedosos flutuantes e compridos
E outro nasceu de tudo quanto viu

---
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 - 2004)