«Uma forma de o medíocre convencido imitar a grandeza é não dizer mal de ninguém.»

Vergílio Ferreira (1919 - 1996)


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1 de agosto de 2010

Prosa, perigosa e espontânea

" Empurrámos a bicicleta pelos vários bares e cafetarias da faculdade e passámos pelo Robbie's para ver se estava lá alguém conhecido. Encontrámos Alvah, que lá trabalhava em part-time como ajudante de copa. Japhy e eu parecíamos extraterrestres no campus por causa das nossas roupas velhas, na realidade Japhy era tido como um excêntrico pela malta do campus, que é aquilo que normalmente essas pessoas e os universitários em geral pensam sempre que um verdadeiro homem surge em cena; pois as faculdades não passam de escolas para amestrar os anónimos da classe média que geralmente se sentem no seu perfeito elemento morando nos arrabaldes do campus em bairros residenciais de vivendas com relvados e televisões em cada sala, com toda a gente a ver a mesma coisa e a pensar na mesma coisa ao mesmo tempo, enquanto os Japhies deste mundo se aventuram no coração da selva para ouvir a voz que grita no mato, para encontrar o êxtase das estrelas, para achar o segredo negro e misterioso desta miserável civilização sem rosto nem espanto. "
Jack Kerouac (1922-1969)
in Os Vagabundos do Dharma

6 de março de 2010

Citações do Mago

«O homem tem uma cara de parvo chapado. Eu estou farto de ler o gajo. Um dia entro numa livraria e pego nisto ("Boa Noite") e vejo: "Romance". Eu desato a rir à gargalhada! Isto lê-se em dez minutos, este gajo deve ser mas é maluco!»

Luiz Pacheco
in Jornal de Letras, sobre
Pedro Paixão, em 24 de Setembro de 1997

26 de fevereiro de 2010

Nas margens d'O Sena

«[...] Paris é a cidade que ri, que ri de tudo, por tudo, através de tudo; que ri nos momentos mais solenes como nos momentos mais cómicos; em frente dos problemas mais importantes e mais complexos, como em face dos assuntos mais frívolos.

(...)

Quando todas as nações choram e se lamentam, a soberba cidade, que reina vitoriosa no mundo dos espíritos, vinga-se pelo riso de todas as injustiças, de todos os suplícios, de todas as dores, de todas as tiranias!

(...)

Por eu dizer que Paris ri, não digo que ela deixa de pensar [...]»

---
Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921)
in Cartas a Luísa

24 de fevereiro de 2010

Chile, Chile, Chile.


Estou-me nas tintas para o que está na montra das livrarias. Estou-me nas tintas para os labirínticos esquemas de venda das editoras. Estou-me nas tintas para se este homem era um agarrado ou não. Estou-me nas tintas para se este tipo era de esquerda, direita ou apolítico. Estou-me nas tintas para os livros da moda. Estou-me nas tintas para se ele é um best seller depois de morto. Estou-me nas tintas.

Porque este homem, meus caros, Roberto Bolaño Ávalos, mais conhecido por Roberto Bolaño, puta que o pariu!, que génio do caralho!, escreve. mas escreve que se desunha!

22 de fevereiro de 2010

A valorização de autores portugueses




Consta-me que temos vindo a assistir a um "boom" de interesse e de "reflexão" sobre Fernando Pessoa. É relativamente normal que assim seja, visto ser o primeiro autor estudado, compreensível pela maioria, pitorescamente, por estudantes do secundário. Não entendo eu como podem esses estudantes fascinar-se tanto por Pessoa, ao invés de outros autores como Gil Vicente, Vergílio Ferreira, Camões, Saram... Saramago é um caso diferente, firma-se como tão importante quanto Pessoa mas não tão acessível, primando por um estilo enquistado numa pontuação atípica, num conteúdo prolífero em metáforas sociais, numa catadupa de palavras caras, de tal modo que quando lhe lemos uma palavra com - vá... - mais de sete letras sentimos que é a primeira vez que a lemos na obra, não obstante já termos passado da página duzentos. Não é cativante, parece que aquilo não progride. Eu percebo "estudantes-do-secundário-que-se-eternizam-estanques-pela-desfiguração-em-Pessoa". Pessoa é fácil, é bonito, é familiar, é um eterno adolescente, é um traumatizado, fala de flores e de ovelhas, fala de riachos, de porcas e outras ferramentas, de odes, de descobrimentos, de reis, consoante o lado para onde acorde; tudo bem, não o condeno, e é um bom poeta, ou um óptimo poeta e um bom escritor em geral, mas... independentemente disso, faz uso de uma métrica simples e que prima pelo impacto. Não aquece nem arrefece. Parece-me a mim.

Eu gostava mesmo era que se alimentasse o despique quase hooligan de Saramago versus Lobo Antunes. Este último é uma puta. Daquelas que nos dá prazer com frases longas e ondulante, mas coerentes e ricas. Muito ricas. Lê-lo é uma fenomenal orgia de referências, de ideias, de momentos, e a descrição que deles faz assemelha-se a um retrato do pensamento humano ao longo das vinte e quatro horas de um dia, do pensamento de um homem médio e comum. Ninguém até hoje me conseguiu incutir essa ideia como ela. Em todas as artes. Lobo Antunes, é muito honestamente um escritor para Nobel, signifique isso o que significar, e muito me custaria vê-lo esticar o pernil sem o receber; como aconteceu a Updike e a Amado, entre outros. Acho ainda, e informo em confissão, que ao lado de Luiz Pacheco e de Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes é a proa da prosa portuguesa do século XX.

E, sim, chamo-lhe puta e sinto-lhe gratidão por isso. Eu também sou uma puta, para ele. E ele sabe do que falo...

Obrigado.

20 de fevereiro de 2010

Ora aqui está um trecho digno de registo

«Nos seus acessos de misoginia o médico costumava classificar as mulheres consoante o tabaco de usavam: a raça Marlboro-sem-ser-de-contrabando lia Gore Vidal, passava o verão em Ibiza, achava Giscard d'Estaing e o príncipe Filipe muito pêssegos e a inteligência uma maçada esquisita; o tipo Marlboro-de-contrabando interessava-se por design, bridge e Agatha Christie (em inglês), frequentava a piscina do Muxaxo e considerava a cultura um fenómeno vagamente divertido quando acompanhado do amor do golfe; o género SG-Gigante apreciava Jean Ferrat, Truffaut e o Nouvelle Observateur, votava Socialista e mantinha com os homens relações ao mesmo tempo emancipadas e iconoclastas; a classe SG-Filtro tinha o poster de Che Guevara na parede do quarto, nutria-se espiritualmente de Reich e de revistas de decoração, não conseguia dormir sem comprimidos e acampava aos fins-de-semana na lagoa de Albufeira conspirando acerca da criação de um núcleo de estudos marxistas; o estilo Português-Suave não se pintava, cortava as unhas rentes estudava Anti-Psiquiatria e agonizava de paixões oblíquas por cantores de intervenção feios, de camisa da Nazaré desabotoada e noções sociais peremptórias e esquemáticas; por fim, o lumpen do tabaco de mortalha enlanguescia ao som dos Pink Floyd em gira-discos de pilhas junto à Suzuki do amigo de ocasião, adolescentes fazendo reclame aos amortecedores Koni nas costas dos blusões de plástico. À margem desta taxonomia simplificada situava-se o grupo da Boquilha, menopáusicas donas de boutiques, de antiquários e de restaurantes em Alfama, tilitantes de pulseiras marroquinas, saídas directamente dos esforços dos institutos de beleza para os braços de homens demasiado novos ou demasiado velhos, que lhes ajardinavam as melacolias e as exigências em duplexes a Campo de Ourique, inundados na voz de Ferré e dos bonecos da Rosa Ramalho, e onde as lâmpadas indirectas tingiam os seios gastos de uma penumbra púdica e favorável.»

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António Lobo Antunes (1942-)
in Memória de Elefante

12 de fevereiro de 2010

Profetizando e Homenageando...

«E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades, - principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estróina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas. No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava liberdade, dava-me responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado, mas sentido já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver, - de prolongar a Universidade pela vida adiante [...]»

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Machado de Assis (1839-1908)
in Memórias Póstumas de Brás Cubas (Cap. XX, Bacharelo-me)

4 de fevereiro de 2010

Um mal necessário

«[...] As leis boas para a sociedade são, no entanto, muito más para o indivíduo que a compõe; pois, por mais que o protejam ou abonem, perturbam-no e aprisionam-no durante três quartos da sua vida; também o homem sensato e cheio de desprezo por elas as tolera, como faz relativamente às serpentes e às víboras, as quais, embora firam ou envenenem, servem, contudo, algumas vezes, a medicina [...]»

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D. A. F. de Sade (1740 - 1814)
in A Filosofia na Alcova

13 de janeiro de 2010

Queixinhas da queixinhas

«Gertrude Stein era uma queixinhas. E com as suas queixas rotulou aquela geração. Mas era tudo treta. Não havia qualquer tipo de movimento, nenhum bando coeso de niilistas fumadores de erva a vaguear de um lado para o outro à espera que a Mamã os conduzisse para fora do deserto dadá. O que havia era muita gente mais ou menos da mesma idade que atravessara a guerra e que agora escrevia ou compunha, ou lá o que era, e outras pessoas que não tinham passado pela guerra e ou desejavam tê-lo feito ou desejavam escrever ou se vangloriavam de não ter participado na guerra. Ninguém que eu tenha conhecido naquela altura se considerava portador das cores da Geração Perdida, ou ouvira sequer a designação. Éramos uma turba bastante unida. As personagens em Fiesta eram trágicas, mas o verdadeiro herói era a terra, e ficamos com a sensação do seu triunfo ao submeter-se para sempre.»

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Ernest Hemingway (1899 - 1961)

9 de janeiro de 2010

Toda a lei é justa

«[...] é desnecessário perguntar a quem pertence o poder de fazer leis, porque elas são actos de vontade geral; nem se o príncipe está acima das leis, porque ele é membro do Estado, nem se as leis podem ser injustas, porque ninguém é injusto consigo próprio. Também é desnecessário perguntar como se pode ser ao mesmo tempo livre e submetido a leis, porque elas mais não são do que registos da nossa vontade [...]»

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Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778)
in Do Contrato Social

4 de janeiro de 2010

Albert Camus: "50 ans après sa mort"

4 de Janeiro de 2010.
Faz hoje 50 anos que faleceu este ícone da Literatura.

Considerações post-revolucionárias


«O que é preciso é a criação de um novo partido adequadamente apto a compreender, integrar e representar o que há de, a um tempo, intelectual e salvador, o que de verdadeiramente renascente [?] e regenerador há entre nós. Esse partido deverá constituir-se quanto antes, logo que apareçam os homens novos capazes de lhe tomar a chefia. Deve ser rigorosamente individualista, nitidamente desdenhoso de tudo quanto, entre o tumultuar moderno, representa, embora sob a forma de progresso, degenerescência e debilidade sociais. Deve ser um partido novo inteiramente, onde possam ingressar quantos representem quer forças de regeneração, quer desejos intensos dela; e alheio aos homens cuja predominância, antes e depois da revolução, os incompatibiliza, não a todos com uma aspiração honesta e sincera, mas a todos com um modo certo e apto de a realizar. Nada de B[ernardino] M[achado], de Af.º C.ª, de António José de Almeida; nada de Machado Santos, (...) Nada disso presta para a construção. Serviram para o período e durante o período revolucionário. A sua missão terminou. A sua sobrevivência intrigante causa um doloroso desprezo. Alguns são sinceros, mas nenhum o sabe ser.»

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Fernando Pessoa (1888 - 1935)
in Da Républica (1910 - 1935)

Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão. Lisboa: Ática, 1979.