«Uma forma de o medíocre convencido imitar a grandeza é não dizer mal de ninguém.»

Vergílio Ferreira (1919 - 1996)


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1 de agosto de 2010

Prosa, perigosa e espontânea

" Empurrámos a bicicleta pelos vários bares e cafetarias da faculdade e passámos pelo Robbie's para ver se estava lá alguém conhecido. Encontrámos Alvah, que lá trabalhava em part-time como ajudante de copa. Japhy e eu parecíamos extraterrestres no campus por causa das nossas roupas velhas, na realidade Japhy era tido como um excêntrico pela malta do campus, que é aquilo que normalmente essas pessoas e os universitários em geral pensam sempre que um verdadeiro homem surge em cena; pois as faculdades não passam de escolas para amestrar os anónimos da classe média que geralmente se sentem no seu perfeito elemento morando nos arrabaldes do campus em bairros residenciais de vivendas com relvados e televisões em cada sala, com toda a gente a ver a mesma coisa e a pensar na mesma coisa ao mesmo tempo, enquanto os Japhies deste mundo se aventuram no coração da selva para ouvir a voz que grita no mato, para encontrar o êxtase das estrelas, para achar o segredo negro e misterioso desta miserável civilização sem rosto nem espanto. "
Jack Kerouac (1922-1969)
in Os Vagabundos do Dharma

1 de abril de 2010

Ditado soviético

« A quantidade é, por si só, uma qualidade. »

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Gueorgui K. Jukov (1896-1974)

22 de março de 2010

Como está o capitalismo?

« [...] o capitalismo está roído por insanáveis contradições internas e contínua a mostrar-se incapaz de responder às legítimas aspirações económicas, sociais, políticas e culturais da humanidade. »

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Álvaro Cunhal (1913-2005)

6 de março de 2010

Citações do Mago

«O homem tem uma cara de parvo chapado. Eu estou farto de ler o gajo. Um dia entro numa livraria e pego nisto ("Boa Noite") e vejo: "Romance". Eu desato a rir à gargalhada! Isto lê-se em dez minutos, este gajo deve ser mas é maluco!»

Luiz Pacheco
in Jornal de Letras, sobre
Pedro Paixão, em 24 de Setembro de 1997

28 de fevereiro de 2010

Assertividade Popular

«Um banco rouba um milhão: é negócio.
Um pobre rouba um pão: é ladrão»

26 de fevereiro de 2010

Nas margens d'O Sena

«[...] Paris é a cidade que ri, que ri de tudo, por tudo, através de tudo; que ri nos momentos mais solenes como nos momentos mais cómicos; em frente dos problemas mais importantes e mais complexos, como em face dos assuntos mais frívolos.

(...)

Quando todas as nações choram e se lamentam, a soberba cidade, que reina vitoriosa no mundo dos espíritos, vinga-se pelo riso de todas as injustiças, de todos os suplícios, de todas as dores, de todas as tiranias!

(...)

Por eu dizer que Paris ri, não digo que ela deixa de pensar [...]»

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Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921)
in Cartas a Luísa

20 de fevereiro de 2010

Ora aqui está um trecho digno de registo

«Nos seus acessos de misoginia o médico costumava classificar as mulheres consoante o tabaco de usavam: a raça Marlboro-sem-ser-de-contrabando lia Gore Vidal, passava o verão em Ibiza, achava Giscard d'Estaing e o príncipe Filipe muito pêssegos e a inteligência uma maçada esquisita; o tipo Marlboro-de-contrabando interessava-se por design, bridge e Agatha Christie (em inglês), frequentava a piscina do Muxaxo e considerava a cultura um fenómeno vagamente divertido quando acompanhado do amor do golfe; o género SG-Gigante apreciava Jean Ferrat, Truffaut e o Nouvelle Observateur, votava Socialista e mantinha com os homens relações ao mesmo tempo emancipadas e iconoclastas; a classe SG-Filtro tinha o poster de Che Guevara na parede do quarto, nutria-se espiritualmente de Reich e de revistas de decoração, não conseguia dormir sem comprimidos e acampava aos fins-de-semana na lagoa de Albufeira conspirando acerca da criação de um núcleo de estudos marxistas; o estilo Português-Suave não se pintava, cortava as unhas rentes estudava Anti-Psiquiatria e agonizava de paixões oblíquas por cantores de intervenção feios, de camisa da Nazaré desabotoada e noções sociais peremptórias e esquemáticas; por fim, o lumpen do tabaco de mortalha enlanguescia ao som dos Pink Floyd em gira-discos de pilhas junto à Suzuki do amigo de ocasião, adolescentes fazendo reclame aos amortecedores Koni nas costas dos blusões de plástico. À margem desta taxonomia simplificada situava-se o grupo da Boquilha, menopáusicas donas de boutiques, de antiquários e de restaurantes em Alfama, tilitantes de pulseiras marroquinas, saídas directamente dos esforços dos institutos de beleza para os braços de homens demasiado novos ou demasiado velhos, que lhes ajardinavam as melacolias e as exigências em duplexes a Campo de Ourique, inundados na voz de Ferré e dos bonecos da Rosa Ramalho, e onde as lâmpadas indirectas tingiam os seios gastos de uma penumbra púdica e favorável.»

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António Lobo Antunes (1942-)
in Memória de Elefante

12 de fevereiro de 2010

Profetizando e Homenageando...

«E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades, - principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estróina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas. No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava liberdade, dava-me responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado, mas sentido já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver, - de prolongar a Universidade pela vida adiante [...]»

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Machado de Assis (1839-1908)
in Memórias Póstumas de Brás Cubas (Cap. XX, Bacharelo-me)

4 de fevereiro de 2010

Um mal necessário

«[...] As leis boas para a sociedade são, no entanto, muito más para o indivíduo que a compõe; pois, por mais que o protejam ou abonem, perturbam-no e aprisionam-no durante três quartos da sua vida; também o homem sensato e cheio de desprezo por elas as tolera, como faz relativamente às serpentes e às víboras, as quais, embora firam ou envenenem, servem, contudo, algumas vezes, a medicina [...]»

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D. A. F. de Sade (1740 - 1814)
in A Filosofia na Alcova

27 de janeiro de 2010

A coisa. Qual coisa!?

«No-B day
Se Cícero ainda vivesse entre vós, italianos, não diria "Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?", mas sim: "Até quando, ó Berlusconi, atentarás contra a nossa democracia?" Disso se trata. Com a sua peculiaríssima ideia sobre a razão de ser e o significado da instituição democrática, Berlusconi transformou em poucos anos a Itália numa sombra grotesca de país e uma grande parte dos italianos numa multidão de títeres que o seguem de rastos sem se aperceberem de que caminham para o abismo da demissão cívica definitiva, para o descrédito internacional, para a irrisão absoluta.

Com a sua história, a sua cultura, a sua inegável grandeza, Itália não merece o destino que Berlusconi lhe traçou com criminosa frieza e sem o menor vestígio de pudor político, sem o mais elementar sentimento de vergonha própria. Quero pensar que a gigantesca manifestação contra a "coisa" Berlusconi, na qual estas palavras irão ser lidas, se converterá no primeiro passo para a libertação e a regeneração de Itália. Para isso não são necessárias armas, bastam os votos. Ponho em vós toda a minha esperança.»

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José Saramago (1922 - )
in Diário de Notícias, O Caderno de Saramago
(9 de Dezembro de 2009)

13 de janeiro de 2010

Queixinhas da queixinhas

«Gertrude Stein era uma queixinhas. E com as suas queixas rotulou aquela geração. Mas era tudo treta. Não havia qualquer tipo de movimento, nenhum bando coeso de niilistas fumadores de erva a vaguear de um lado para o outro à espera que a Mamã os conduzisse para fora do deserto dadá. O que havia era muita gente mais ou menos da mesma idade que atravessara a guerra e que agora escrevia ou compunha, ou lá o que era, e outras pessoas que não tinham passado pela guerra e ou desejavam tê-lo feito ou desejavam escrever ou se vangloriavam de não ter participado na guerra. Ninguém que eu tenha conhecido naquela altura se considerava portador das cores da Geração Perdida, ou ouvira sequer a designação. Éramos uma turba bastante unida. As personagens em Fiesta eram trágicas, mas o verdadeiro herói era a terra, e ficamos com a sensação do seu triunfo ao submeter-se para sempre.»

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Ernest Hemingway (1899 - 1961)

9 de janeiro de 2010

Um problema da democracia representativa

«Parlamentos variáveis
Nos métodos democráticos de atribuição de representantes jogam diversos factores: os votantes do censo, os partidos concorrentes à eleição e o tamanho do parlamento, quer dizer, o número de lugares a ocupar. Nos Estados Unidos, o número de lugares no Congresso foi evoluindo com os anos, ao terem sido ensaiados diversos modelos possíveis. Tudo começou em 1880, com o problema do Alabama. Com o método de Hamilton, então vigente, quando se passou dos votos aos representantes, verificou-se que o Alabama tinha 8 representantes se a Câmara tivesse 299 lugares, mas apenas 7, se a Câmara tivesse 300. O «paradoxo» do Alabama consistia em que este estado tinha menos representação se a câmara fosse maior. Desde então, o número de lugares e os métodos de atribuição têm variado: a proporcionalidade admite muitos modelos!»

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Claudi Alsina (1952 – )
in O Clube da Hipotenusa

Toda a lei é justa

«[...] é desnecessário perguntar a quem pertence o poder de fazer leis, porque elas são actos de vontade geral; nem se o príncipe está acima das leis, porque ele é membro do Estado, nem se as leis podem ser injustas, porque ninguém é injusto consigo próprio. Também é desnecessário perguntar como se pode ser ao mesmo tempo livre e submetido a leis, porque elas mais não são do que registos da nossa vontade [...]»

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Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778)
in Do Contrato Social

4 de janeiro de 2010

Considerações post-revolucionárias


«O que é preciso é a criação de um novo partido adequadamente apto a compreender, integrar e representar o que há de, a um tempo, intelectual e salvador, o que de verdadeiramente renascente [?] e regenerador há entre nós. Esse partido deverá constituir-se quanto antes, logo que apareçam os homens novos capazes de lhe tomar a chefia. Deve ser rigorosamente individualista, nitidamente desdenhoso de tudo quanto, entre o tumultuar moderno, representa, embora sob a forma de progresso, degenerescência e debilidade sociais. Deve ser um partido novo inteiramente, onde possam ingressar quantos representem quer forças de regeneração, quer desejos intensos dela; e alheio aos homens cuja predominância, antes e depois da revolução, os incompatibiliza, não a todos com uma aspiração honesta e sincera, mas a todos com um modo certo e apto de a realizar. Nada de B[ernardino] M[achado], de Af.º C.ª, de António José de Almeida; nada de Machado Santos, (...) Nada disso presta para a construção. Serviram para o período e durante o período revolucionário. A sua missão terminou. A sua sobrevivência intrigante causa um doloroso desprezo. Alguns são sinceros, mas nenhum o sabe ser.»

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Fernando Pessoa (1888 - 1935)
in Da Républica (1910 - 1935)

Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão. Lisboa: Ática, 1979.

19 de dezembro de 2009

As opiniões...

«As opiniões são como as vaginas. Cada um tem a sua e quem quiser dá-las; dá-las. Certo!?»

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Dra. Rute Remédios